Reposição de aulas: Ano letivo sem fim confunde alunos e professores
Sem professores, alunos são tratados como vândalos e retirados das salas; aulas devem terminar em 24 de janeiro e retornam em 27 de fevereiro
Ontem (3), a Escola Estadual Alexandre Vaz Tavares foi palco de uma cena inusitada que ilustra a confusão criada pelo atraso do calendário escolar de 2011. Por volta das 14h30, cerca de 300 alunos de seis turmas de Ensino Médio aglomeravam-se no pátio da escola. Sem professores nas salas de aula, a direção tomou-os por vândalos e assumiu uma atitude radical: tirá-los das classes para evitar “depreciação” às centrais de ar e carteiras.
A evacuação dos estudantes é apenas uma das conseqüências do calendário letivo espichado após a greve da Educação, deflagrada entre os meses de maio e junho do ano passado. O acordo firmado estipulou a reposição das aulas aos sábados e durante o mês de dezembro, o que sacrificou as férias escolares. O clima de insatisfação é comum a professores e estudantes.
Com as férias prejudicadas, os alunos reclamam da negligência de alguns profissionais que se recusam a cumprir o pacto acordado com a Secretaria de Educação (Seed). E também admitem a falta de entusiasmo para frequentar as aulas neste período. “A nossa professora de Biologia viajou no início de dezembro. Passou as provas no início do mês e, agora, estamos com dificuldade em acessar as médias pelo Boletim Eletrônico”, disse Alysson de Freitas, do 1° ano do Ensino Médio.
De acordo com os pais dos estudantes, as aulas que não foram registradas em caderneta também deixaram de ser cobradas pela coordenação pedagógica, gerando um clima de insatisfação entre professores e alunos. Os horários dos professores faltosos precisaram ser abonados por aqueles que continuam frequentando as salas de aula. Quando isto não acontece, os alunos são mandados para o pátio da escola para aguardar o próximo horário.
Muitos estudantes desistem de esperar e voltam para casa antes do término das aulas. “Não adianta vir até aqui. Às vezes, é só para buscar uma nota e saber se foi aprovado na disciplina. Quando a gente tem sorte, o professor aparece na escola, quando não, dá uma viagem perdida”, reclamou João Carlos Batista, estudante do 2° ano. A declaração do aluno denota o tom de revolta e a falta de respeito para com os estudantes.
Coibindo o vandalismo
No momento em que a reportagem esteve no Alexandre Vaz Tavares, o diretor não estava no local. Contatado por um funcionário, chegou dez minutos depois. Antes disso, uma servidora conhecida como “Raimunda” explicou que os alunos estavam fora das salas de aula por motivo de entrega de notas. Indagada sobre a decisão de fazer os estudantes aguardarem fora das salas, a funcionária explicou que “essa medida seria para coibir o vandalismo, já que os alunos quebram carteiras e depreciam as centrais de ar quando estão nas salas, sem professor”.
O gesto assusta até quem desconhece o funcionamento de um ambiente escolar e os métodos de ensino adotados pela instituição. Ao tratar-se de estudantes de Ensino Médio, na faixa etária de 15 a 19 anos, subentende-se que o corpo docente deveria estar preparado para lidar com jovens cuja característica seja a explosão de temperamento. Entretanto, o ato demonstra uma postura autoritária e despojada de reflexão pedagógica.
É certo que os atos de vandalismo, mencionados pela servidora, não são praticados pelos 1.986 estudantes da escola estadual Alexandre Vaz Tavares. No entanto, impedindo a permanência dos alunos em sala, a punição é estendida a todos indiscriminadamente. O próprio diretor da escola, José Eudo Banha, confirmou a informação e explicou as razões da retirada dos estudantes das salas.
Segundo Banha, “eles reclamam em demasia e só adotam este comportamento quando o ano letivo está terminando”. O diretor disse ainda que não há falta professores na escola e, embora, não soubesse precisar o número, estimou que mais de 50 profissionais integram o quadro efetivo e apenas dois pertencem aos contratos temporários.
Desencontro de informações
Carla Karoline Carvalho Santos, de 18 anos é aluna do 3° ano da escola e desistiu de prestar vestibular. Ela queria ter certeza de que estar aprovada em todas as disciplinas do Ensino Médio para poder ingressar no Ensino Superior. Carla e a mãe peregrinaram na tarde de ontem (3) pelos corredores da Escola Alexandre Vaz Tavares em busca de informações quanto ao lançamento de médias. A jovem estaria em recuperação nas disciplinas de matemática e língua portuguesa, embora apareça como aprovada nos outros três bimestres anteriores no Boletim Eletrônico.
“Antes, os professores passavam as notas para a gente. Agora o sistema adotado é o Boletim on-line. Eu percebo que nem todos aprenderam a usar esse método e acabam atrasando no repasse das médias. Quando vamos buscar estas informações na Secretaria da escola, a orientação é de que a gente procure os professores”, criticou ela, que ainda não sabe se vai precisar comparecer à escola na próxima segunda (9) quando inicia o período de recuperação.
O diretor da escola admite que os profissionais da escola ainda não estão adaptados ao método informatizado, mas disse que o atraso do lançamento de notas deve estar resolvido até o final da semana. “Os professores pediram esse prazo para dar tempo de apresentar as cadernetas e, assim, fazer a contagem de médias com os estudantes”, reforçou José Eudo.
De acordo com o calendário escolar definido pela Secretaria de Educação (Seed) após a greve, o ano letivo de 2011 deve encerrar no dia 24 de janeiro. Estima-se que até o dia 27 de fevereiro, depois do carnaval, seja iniciado o calendário escolar deste ano. (Stefanny Marques/aGazeta)