Marisa Monte->Vilarejo

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

As revelações do livro “A privataria tucana” sobre a era FHC

Por Nezimar Borges(*)

As revelações do livro A PRIVATARIA TUCANA são estarrecedoras e confirmam por meio de farta documentação o que foi a era das privatizações no governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso e José Serra, ambos protagonistas do desmantelamento do Estado brasileiro, numa época de consenso do “fim da história” e do fim do Estado como guarida do bem-estar social por considerar que, para entrar na modernidade, precisava-se vender quase tudo o que era público, com isso consolidar o mercado como regulador da economia e enxugar o máximo a máquina pública até resultar num patamar de estado mínimo possível.

O “Privataria Tucana” foi ignorado pela velha mídia apesar de ser um fenômeno editorial, sendo vendidas 120 mil cópias em apenas um mês. Nele, o renomado jornalista Amaury Ribeiro Jr., passa a limpo o trabalho de dez anos de investigação, denunciando comprovadamente a grande roubalheira que foi a “venda” das
exorbitantes estatais brasileiras, estourando a faceta da corrupção de José Serra, além de rastrear o vaivém das fortunas ilegais do tucanato em diversos paraísos fiscais.

O jornalista tem inúmeros trabalhos investigativos, principalmente na seara policial, o que lhe rendeu um atentado em 2007 quando investigava o tráfico de drogas no entorno das cidades satélites de Brasília. Paralelo a isso, investigava há mais tempo a era das privatizações.

A tentativa de homicídio fez mudar sua vida, quando recluso em Minas recebeu o convite para trabalhar para o jornal Estado de Minas. Mais tarde, entraria numa briga de caciques da política nacional, na então acirradíssima disputa entre José Serra e Aécio Neves pela candidatura do partido direitista, PSDB, à presidência da república em 2010.

Com a incumbência de saber quem eram os arapongas contratados por Serra que estavam no encalço de Aécio, na expectativa de algum passo em falso do mineiro, a fim de alijá-lo das prévias dentro do ninho tucano, descobriu que se tratava de arapongas ligados ao deputado Marcelo Itagiba, ex-delegado da Polícia Federal, casado com uma prima de Serra, o mesmo das investigações que detonou a candidatura de Roseana Sarney em 2002.

A consistência do livro incide, principalmente, sobre as operações realizadas pela família de José Serra, sua filha Verônica Serra, seu genro Alexandre Bourgeois, o primo Gregório Marín Preciado, seus sócios como Daniel Dantas, amigos como o ex- tesoureiro das campanhas de FHC e do próprio Serra, Ricardo Sergio de Oliveira.

Vender tudo o que der pra vender, esse era o lema do governo FHC. Em 1995, então pressionado pela revista Veja, acelerou o processo de privatização: “É preciso dizer sempre e em todo lugar que este governo não retarda privatização, não é contra nenhuma privatização e vai vender tudo o que der para vender.” dizia FHC e vendeu importantes empresas brasileiras a preço de banana.

Foram vendidas lucrativas empresas siderúrgicas, ferrovias, empresas de energia e de telecomunicações, entre outras. Ressalte-se, uma das maiores perdas foi a venda da Vale do Rio Doce - a segunda maior mineradora do mundo, com um faturamento de mais de 2 bilhões de dólares ao ano. A “menina dos olhos” dos nacionalistas foi privatizada no mesmo ano em que se anunciou a descoberta da maior jazida de ouro no Pará.

O plano dos entregadores do Brasil era a privataria também das grandes empresas como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, Petrobrás e a maior siderúrgica da América latina, Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN. Esta foi vendida, enquanto as outras escaparam por pouco. A Petrobrás chegou a ter sua venda preparada, inclusive com a alteração do nome da empresa para Petrobrax.

O discurso dos “piratas do caribe” era a de que as empresas brasileiras davam prejuízos e que o Estado teria muito a ganhar com as vendas e amortização das dívidas interna e externa, no entanto, a prática foi outra, totalmente contrária, porque praticamente o Estado pagou para vender, inclusive os passivos das dívidas de algumas delas ficaram com o estado brasileiro a fim de torná-las mais atrativas para a o mercado. Além do mais, as empresas aumentaram o valor da divida externa ao realizarem empréstimos no exterior. E o que é mais esdrúxulo, o BNDS, que é um banco nacional, financiou a compra de várias estatais, ou seja, o próprio povo brasileiro pagando pelas estatais e repassando a particulares e a grandes grupos empresariais privados internacionais.

Outro exemplo absurdo que o livro revela sobre a privataria da CSN, refere-se ao pagamento de apenas R$ 1,05 bilhão, desse valor cerca de R$ 1bilhão foi dinheiro do BNDS para cobrir títulos sem validade no mercado. Inacreditável. E os cofres públicos só viram R$ 38 milhões.

Para “vender” o Brasil dessa maneira, os tucanos só poderiam receber muitas graças em troca. As mais de 350 páginas só de documentos exclusivos confirmam os caminhos das vultosas propinas movimentadas nas “lavanderias” em paraísos fiscais, como as de Ilhas Virgens, no Caribe. Os valores foram internados em empresas fantasmas, as chamadas offshores, onde os verdadeiros donos das fortunas provenientes da corrupção eram apenas vultos.

O livro denuncia as tramóias dos larápios de colarinho branco responsáveis pelo maior assalto ao erário do povo brasileiro. Oportuno salientar que a elite brasileira sempre escondeu os horrores da escravidão, os torturadores e assassinos da época da ditadura, entretanto, mais de uma vez é preciso ir contra o histórico da história e meter na cadeia todos os culpados desse assalto. E seguir o exemplo do Peru com Fujimori, México com Salinas de Gorari, Argentina com Carlos Menen e Bolívia, onde esses presidentes foram colocados na cadeia pelos mesmos crimes daqueles cometidos no Brasil na era da privataria que assolou América latina.


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(*)Acadêmico de jornalismo
Contacto:(96) 9147-0520 - 8135-3197
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